Quando acordo pela manhã, noto hábitos que nem sei quando começaram de tanto tempo que aqui estão. Abro os olhos, viro pro lado em busca do celular, para ver se tem alguém a minha espera, mensagens que precisam ser respondidas, e-mails guardando informações urgentes. Como alguém que escolheu morar longe e trabalhar remoto, a tecnologia é meio para contato com o mundo, família e amigos. Automaticamente, abro o instagram sem esforço e rolo o feed sem nem perceber. Passam minutos e a quantidade de informação de vidas perfeitas, falas rápidas e frases motivacionais inundam a minha mente e aceleram meus pensamentos. Percebo isso como quem percebe que algo está errado e fecho todos os aplicativos, na tentativa de fingir que isso não aconteceu. Resolvo então mudar algumas coisas, e a primeira delas é sair de todas as minhas contas em redes sociais (com exceção do substack, que ainda tem sido um lugar de refúgio, apesar de estar mudando ultimamente com notas postadas claramente para provocar engajamento e não apenas para partilhar o que tem dentro da gente). A segunda, é mudar os ícones dos aplicativos de lugar, só para tornar mais difícil o acesso, aumentando o tempo e energia para poder usá-los. O dia passa, e me pego repetidamente buscando o celular e, como quem conhece o caminho, meus dedos vão direto onde estava o ícone do aplicativo mais usado, que ali não mais está. Quando chego lá e não vejo o app, ou quando clico no app e preciso fazer login na minha conta novamente, me lembro que decidi sair, e o mais importante, relembro o motivo pelo qual decidi sair. É nessa pausa que me dou conta do quanto de costume existe nas pequenas ações que compõem o meu dia e foi assustador perceber quantas vezes eu fiz isso em um mesmo dia. Se estou esperando na fila do supermercado, me pego buscando o celular para passar o tempo, se estou no aeroporto a espera do próximo voo, busco me distrair vendo o que está acontecendo longe de mim. Se vou ao banheiro, o celular muitas vezes estava comigo. O que há na espera? fiquei pensando.
Decidi então fazer um experimento e passar 10 dias sem usar o instagram, dar uma pausa na partilha de informações e no consumo delas através desse meio. Na verdade eu iria passar 10 dias em silêncio em um retiro de meditação, sem internet, sem livros, sem conhecidos… mas a vida aconteceu e precisei cancelar minha participação e seguir sem me retirar. Com isso, os 10 dias em silêncio total viraram 10 dias sem rede social. E apesar de não querer ser aquela pessoa que sai das redes sociais e volta pra contar nas redes como foi ficar fora delas, aqui estou eu.
Percebi o corte da expectativa das manhãs em que o despertar era seguido da busca por informações. E na ausência da enxurrada de coisas que redes sociais me traziam, experimentei um abismo de espaço e tempo, que me mostraram muitas coisas, desde ansiedade diante da falta, até uma calma em poder escutar meu próprio ritmo. Dia após dia, foi ficando mais fácil a espera e a vivência do tempo sem fugir dele. Ao invés de acelerar com o passar do feed e com o consumo de vídeos rápidos, desacelerei começando o dia com uma meditação, pegando um livro que queria ler faz tempo (não livro técnico, acadêmico, mas de histórias reais, que me mostravam realidades em outro ritmo, com outros olhos). Isso sempre sentada na sala acompanhada de um café quentinho que aromatizava o lugar inteiro. A vida presta, já diria Fernanda Torres.
Não é que eu não sabia que isso iria acontecer, eu sabia, mas tem coisas que a gente sabe e esquece. Para isso servem os lembretes. Meu retorno para as redes me mostrou o quanto que, para mim, nesse momento da vida, não faz mais sentido estar lá do jeito que já estive. Não me faz bem, me acelera, me faz me comparar demais e aumenta dificuldades que não são tão grandes assim, muda a percepção das coisas. Ultimamente lá tem sido ponto de conexão com amigos e família, muito mais do que cartão profissional. Claro que ainda uso para divulgar o que ando fazendo, inclusive para dar visibilidade ao meu podcast que lancei mês passado. E vejo que é sobre isso, saber usar e saber quando parar de usar. Por isso resolvi escrever sobre essa experiência no diário, para deixar registrada aqui esses sentires e insights que compõem a minha mudança de perspectiva sobre minha presença por lá.
Ah, aproveito também para te contar sobre o novo episódio do podcast que falamos sobre menopausa. Mais uma pausa que mostra e traz mudanças na nossa forma de ver o mundo e a nós mesmas. Tive um encontro muito inspirador com a ginecologista Nina Rosa que me contou sobre como seu filho de 8 anos a fez mudar de carreira ao dizer que ela era a única mãe que não estava presente nos jogos de futebol da escola. Falamos sobre o que a menopausa traz e o quanto não somos preparadas para menstruar, nem para parar de menstruar. Se quiser ouvir esse papo, ele está disponível no Spotify e no Youtube.
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Por hoje é isso,
Até já!



Tão necessário essa pausa quanto urgente.
Totalmente pertinente e necessário o seu texto. É preciso refletir sobre esse efeito das redes nos nossos comportamentos.